domingo, 2 de novembro de 2014


Seltsam
Raro, estranho

De agora me perco
no ventre raro das rochas
nos cascos das montanhas
onde vagueiam javalis feridos

saio por dentro
em pus gangrena
e em lua-cheia
uivo por fim

de agora me sou
raro estranho
e na dor me desentranho
serafim que não vive em mim

ardidos são das vítimas os requerimentos
campo de concentração de todos os lamentos
quando o sol bate em retirada
e explode dentro de nada

alquimista soldador
é da morte o pintor
apocalipse da cor
explosão turbina de motor


2014


Meditation on Anselm Kiefer's 'Seraphim'

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dieses Heft ist wie eine Seele ohne Leib oder ein Leib ohne Seele!


Assim me afundei mais uma vez
banido por dentro
dor sem centro

Dass ich verbannt sei
von aller Wahrheit

Salvem-me das verdades
máscaras viscerais 
que só um corpo doente sente

Salvem-me de ter em cada dente
a raiva rangida da partida
que eu seja banido
e em cada palavra proscrito-

dêem-me palavras para apedrejar
os que morrem de ser inocentes
os que vivem de ser incêndios
na mentira infinita de no medo aterrar

Salvem-me de me ultrajar
por cada verdade que penso
nelas me minto e sou blasfemo
nelas me traio e me torno raio
que em mim fulgurante cai

Salvem-me das verdades carbonizadas 
das palavras roídas pela traça

entre os pés e a mão
há sempre um vulcão!

27/10/2014